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segunda-feira, novembro 12

as coisas


A bengala, as moedas, o chaveiro,
a dócil fechadura, essas tardias
notas que não lerão meus poucos dias
que restam, o baralho e o tabuleiro,
um livro e dentro dele a esmagada
violeta, monumento de uma tarde
por certo inolvidável e olvidada,
o rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora.
Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, copos, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além do nosso olvido
e nunca saberão que já nos fomos.

Jorge Luís Borges

quinta-feira, novembro 1

um casaco


Fiz à poesia um casaco
Todo bordado e com rendas
De velhas mitologias,
Do pescoço até aos pés;
Mas os asnos mo roubaram,
Usaram-no aos olhos do mundo,
Como se o tivessem feito.
Poesia, deixa-os usá-lo,
Pois que há muito mais coragem
Em passear-se todo nu

W.B.Yeats

terça-feira, outubro 23

já agora...




Ostensivo sol não preciso do teu calor - afasta-te!
Tu iluminas só as superfícies, eu penetro as superfícies e as profundidades.

Terra!Terra! pareces buscar algo nas minhas mãos,
Diz, velha poupa, o que é que queres?

Homem ou mulher, podia dizer-te quanto gosto de ti, mas não posso,
Podia dizer-te o que há em mim e em ti, mas não posso,
Podia dizer-te do meu desejo, desse pulsar dos meus dias e das minhas noites.

Ouve: eu não dou conferências nem pequenas caridades,
Quando dou é por inteiro que me dou.

Tu aí, ó impotente, com os joelhos trémulos,
Abre os lábios enrugados para que te dê forças,
Estende as palmas das mãos e abre os bolsos,
Eu não serei recusado, imponho-me, tenho tanto armazenado, tanto para dar,
E ofereço tudo o que tenho.

Não pergunto quem és, para mim isso não é importante,
Não podes fazer nada, não podes ser mais do que aquilo que te dou.

Inclino-me perante quem moureja nos campos de algodão e perante quem
limpa as latrinas,
Na sua face direita deixo um beijo familiar,
E do fundo da minha alma juro que jamais o renegarei.

Nas mulheres que concebem concebo crianças mais robustas e aptas,
(Neste dia lanço a semente de repúblicas muito mais arrogantes).

Àquele que morre acudo à sua porta e rodo a maçaneta,
Atiro os cobertores para os pés da cama,
Despeço o médico e o padre.

Agarro o homem que desfalece e levanto-o com irresistível vontade,
ó desesperado, aqui tens a minha nuca,
Por Deus, não te vás abaixo! apoia-te a mim com todo o peso.

Dilato-te com um sopro tremendo, dou-te alento,
Encho todos os quartos da casa com um exército armado,
Meus amantes, vós que do túmulo me enganam.

Dorme ... eu e eles velaremos toda a noite,
Nem dúvida nem morte ousarão tocar-te com um dedo,
Abracei-te e a partir de agora pertences-me,
E quando pela manhã te levantares verás que é verdade o que te digo.

Walt Whitman
(canto de mim mesmo)
tradução de José Agostinho Baptista

quarta-feira, outubro 17

as palavras


Girar em torno delas,
virá-las pela cauda (guinchem, putas),
chicoteá-las,
dar-lhes açúcar na boca, às renitentes,
inflá-las, globos, furá-las,
chupar-lhes sangue e medula,
secá-las,
capá-las,
cobri-las, galo, galante,
torcer-lhes o gasnete, cozinheiro,
depená-las, touro,
bois, arrastá-las,
fazer, poeta,
fazer com que engulam todas as suas palavras.

Octavio Paz

domingo, outubro 14

as mademoiselles de avignon


As mademoiselles de avignon
foram surpreendidas numa rusga da polícia,
nas imediações do museu

jorge de sousa braga

sábado, outubro 6

um dia especial

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão.
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.

Eugénio de Andrade

sábado, setembro 29

chove...


no meu coração
Como chove na minha cidade.
Por quê esta lassitude
Me invade o coração?

Verlaine

quinta-feira, setembro 27

o sorriso



Creio que foi o sorriso,
0 sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugênio de Andrade

segunda-feira, setembro 3

salada de frutas



E, à volta da estreita loja, os frutos amontoavam-se.
Atrás, ao longo das prateleiras, estendiam-se
filas de melões, cantalupos listados de verrugas,
leguminosas de guipuras cinzentas, os múrices
purpúreos com as suas bossas nuas.
Em exposição, os belos frutos, delicadamente
dispostos em cestos, tinham formas redondas
de bochechas que se escondem, rostos de bonitas
crianças parcialmente entrevistos sob uma cortina de folhas;
sobretudo os pêssegos, os Montreuil rubros,
de pele fina e clara como as raparigas do Norte,
e os pêssegos do Sul, amarelos e tostados,
como as raparigas rosadas da Provença.
Os damascos adquiriam sobre o musgo tons de âmbar,
esses calores de pôr-do-sol que aquecem a nuca das morenas,
onde os cabelos se encaracolam.
As cerejas, dispostas uma a uma, lembravam os lábios demasiado
finos de uma Chinesa sorrindo.
As Montmorency, os lábios rechonchudos
de uma mulher gorda; as Inglesas, mais alongadas
e mais sérias; as ginjas-garrafal, polpa comum, negra,
tocada de beijos; as cerejas-garrafal,
manchadas de branco e rosa, com o riso
ao mesmo tempo alegre e zangado.
As maçãs e as pêras empilhavam-se
com regularidades de arquitectura, formando pirâmides,
mostrando rubores de seios nascentes,
ombros e ancas dourados, toda uma nudez discreta,
no meio das hastes de feto; eram de peles diferentes,
as maçãs camoesas no parreiral, as esperiegas amolecidas,
as maçãs camoesas de vestido branco, as reinetas-do-canadá
sanguíneas, as castanhas rosadas,
as reinetas louras, salpicadas de ruivo; depois,
as variedades de pêras, a pêra branca, a inglesa,
as pêras-manteiga, as "messire-jean", as duquesas,
atarracadas, alongadas, com pescoços de cisne
ou ombros apoplécticos, as barrigas amarelas e verdes,
realçadas por uma ponta de carmim.
Ao lado, as ameixas transparentes mostravam
doçuras eloráticas de virgem; as rainhas-cláudia,
as ameixas do senhor, empalidecidas por uma
flor de inocência; as mirabelas desfiavam como
as pérolas de ouro de um rosário,
esquecido numa caixa de paus de baunilha.
E os morangos, exalavam também eles um
fresco perfume, um perfume de juventude,
principalmente os pequenos, os que se colhem
nos bosques, mais ainda do que os grandes morangos
de jardim, que cheiram a insipidez dos regadores.
As framboesas acrescentavam um aroma a este odor puro.
As groselhas, os cássis, as avelãs, riam com ares sagazes;
enquanto cestos de uvas, pesados cachos
carregados de embriaguez, desfaleciam à volta do vime,
deixando pender os seus bagos queimados pelas
volúpias demasiado quentes do sol.

Le Ventre de Paris
ZOLA

terça-feira, agosto 28

mar da manhã


Que eu me detenha aqui.
E que também eu veja
um pouco a natureza.
De um mar da manhã
e de um céu sem nuvens
roxas cores brilhantes
e margem amarela; tudo
belo e grande iluminado.
Que eu me detenha aqui.
E que me engane para ver isto
(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);
e não aqui também os meus devaneios,
as minhas recordações,
os modelos da volúpia.

Kavafis