domingo, dezembro 30

Oscar Peterson


Compositor, pianista de Jazz e um dos melhores de  sempre. 

Tinha 82 anos, morreu segunda-feira, na sua residência, em Toronto.


Ao piano desenvolveu um estilo inconfundível e tocou com os maiores músicos da sua geração entre os quais Duke Elligton Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Carmen McRae, Louis Armstrong, Lester Young, Count Basie, Charlie Parker, Quincy Jones, Stan Getz, Coleman Hawkins, Dizzy Gillespie, Roy Eldridge, Clark Terry, Freddie Hubbard.

 

Em 1997, recebeu um Grammy pelo conjunto da sua obra. 


Tive o privilégio de o ver tocar em Nova Iorque no maior espectáculo de Jazz a que assisti.


Com a sua morte  perde o Jazz um dos seus maiores autores e interpretes.

sexta-feira, dezembro 28

te quiero...


Te quiero a las diez.
Te quiero a las diez de la mañana,
y a las once, y a las doce del día.
Te quiero con toda mi alma y
con todo mi cuerpo,
a veces, en las tardes de lluvia.
Pero a las dos de la tarde,
o a las tres,
cuando me pongo a pensar en nosotros dos,
y tú piensas en la comida
o en el trabajo diario,
o en las diversiones que no tienes,
me pongo a odiarte sordamente,
con la mitad del odio que guardo para mí. Luego vuelvo a quererte,
cuando nos acostamos y siento
que estás hecha para mi,
que de algún modo me lo dicen tu rodilla
y tu vientre, que mis manos me convencen de ello,
y que no hay otro lugar en donde yo me venga,
a donde yo vaya, mejor que tu cuerpo.
Tú vienes toda entera a mi encuentro,
y los dos desaparecemos un instante,
nos metemos en la boca de Dios,
hasta que yo te digo que tengo hambre y sueño. Todos los días te quiero y te odio irremediablemente.
Y hay días también,
hay horas, en que no te conozco,
en que me eres ajena como la mujer de otro.
Me preocupan los hombres,
me preocupo yo, me distraen mis penas.
Es probable que no piense en ti durante mucho tiempo.
Ya ves.
¿Quién podría quererte menos que yo, amor mío?

Jaime Sabines

quarta-feira, dezembro 26

o fundamentalista relutante

Em cima da minha mesa, junto a tantos outros, há espera de serem lidos, estava um livro a que hoje deitei mão.
Não esperava que as 128 páginas do Fundamentalista Relutante me entusiasmassem tanto apesar de ter lido criticas bastante boas.
Escrito por Mohsin Hamid a história centra-se um jovem promissor paquistanês, licenciado em Princeton onde foi um dos melhores alunos. Trabalha numa grande empresa de Nova Iorque que faz avaliações de empresas,com bom vencimento,está apaixonado por uma jovem Americana,rica,de Upper East Side que o vai levar a fazer parte da elite de Manhattan. Nada parece impedir que o jovem Changez de 22 anos faça uma ascensão meteórica na sociedade americana.
Mas o 11 de Setembro muda a vida deste jovem dividido entre os valores americanos a as saudades da sua família, e da sua terra, que começava entretanto o conflito com a Índia.
A cor da sua pele, os seus traços orientais e a desconfiança da sociedade Americana logo após o 11 de Setembro a todos os árabes, transforma Changez, que passa de um emigrante de sucesso a anti americano convicto.
E assim perde o emprego onde era um dos melhores, perde o amor de Erica - atormentada pela lembrança do namorado morto - e regressa à sua terra.
O livro constroi-se numa conversa que é mais um monologo com um americano desconhecido numa mesa de um café em Lahore.
Encontro fatídico este.
Que fará um Americano desconhecido num café de um País em convulsão?
Porque estará armado?
É de facto uma grande e reconfortante surpresa este belo livro nesta fria tarde de Dezembro, e para mim um dos melhores livros de 2007.

domingo, dezembro 23

"Natal de 1971" ou de 2007?



Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal se ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida um
mundo que não há?
O dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena

quarta-feira, dezembro 19

desde el umbral del sueño...



Lá dos umbrais de um sonho me chamaram...
Era aquela voz boa, voz querida.
- Diz-me: virás comigo visitar a alma?...
No coração me entrava uma carícia.
- Contigo, sempre... E avancei no sonho
por uma longa e recta galeria,
sentindo o só roçar da veste pura
e o suave palpitar da mão amiga.

António Machado

sábado, dezembro 15

niemeyer faz hoje cem anos


este extraordinário arquitecto vê-se assim:
"Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta,
dura, inflexível, criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual
que encontro nas montanhas do meu país.
No curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein."
Niemeyer sem anos.

a corrente


Sente raiva do passado
que o mantém acorrentado.
Sente raiva da corrente
a puxá-lo para a frente
e a fazer do seu futuro
o retorno ao chão escuro
onde jaz envilecida
certa promessa de vida
de onde brotam cogumelos
venenosos, amarelos,
e encaracoladas lesmas
deglutindo-se a si mesmas.

Drummond de Andrade

sexta-feira, dezembro 14

mão amiga...


trouxe até mim uma brochura de uma colectânea de discos editada recentemente pela Sony, de Glenn Gould "Complete Original Jacket Collection - Coffret 80 CD (Edition limitée)" que tratei logo de procurar comprar.
Procurei no site da Fnac e lá encontrei a referência mas sem estar disponível.Teria que encomendar. Prazo de espera mês e meio.
Procurei na Fnac francesa e lá, estava disponível, e pronto para entrega, e (que surpresa) mais barato cerca de 75€. Procurei encomendar directamente de Paris – era mais barato e a entrega era imediata- mas não podia, se queria comprar na Fnac teria que comprar através da Fnac portuguesa que era mais caro e demorava mês e meio a chegar.
Perguntada a Fnac portuguesa a razão pela qual se encomendasse em Portugal demorava um mês e meio a chegar uma coisa que estava disponível na Fnac dos Campos Elísios, responderam-me uma coisa de que vos vou poupar, mas que tinha a ver com o facto do nosso país e a Espanha fazerem parte de uma coisa qualquer, e que de acordo com uma divisão geo-estratégica da Fnac não podiam encomendar a França, teriam que encomendar directamente à Sony nos EUA. Se eu vivesse na Bélgica na Alemanha no Luxemburgo, enfim, em qualquer país europeu que não em Portugal ou Espanha poder-se-ia encomendar os discos de Paris, mas assim não. Estratégias.
Mas como tenho uma especialista cá em casa nestas coisas de comprar pela Net, vou receber hoje, dois dias depois da encomenda uma caixa de 80 Cds do Glenn Gould com as capas das versões originais de vinil, a um preço mais barato que na Fnac Francesa muito mais barato que na Fnac Portuguesa e muito mais rápido que qualquer das duas.
Ah, vem de Londres.
Vou repensar a minha relação com a Fnac enquanto espero ansioso pelo carteiro.

byblos



é sempre uma boa noticia a abertura de uma nova livraria, ainda por cima quando se anuncia que a sua filosofia de funcionamento assenta sobre o leitor e não sobre o consumidor.
Mas é sempre uma má noticia quando se faz uma pré-inauguração com os chamados Vips. Alguns dos convidados nunca mais lá põem os pés. Se é com os leitores que a Livraria conta de futuro porque não foram eles os convidados?

quinta-feira, dezembro 13

tortura...



Já não bastava que o Mundo conhecesse o que as tropas dos EUA fizeram na prisão de Abu Ghraib.
As fotos divulgadas nessa altura para a opinião pública mundial mostravam os prisioneiros a serem humilhados e a sofrerem várias formas de tortura física e psicológica.
Desde cães utilizados para aterrorizar os prisioneiros, mulheres obrigadas a despirem-se em frente aos guardas e grupos de presos obrigados a posar nus e a práticas sexuais em grupo. Há ainda fotos que registam os guardas a urinar nos presos, e a sodomizar detidos com bastões.

Os acontecimentos na prisão de Abu Ghraib foram um dos mais negros episódios da invasão norte-americana do Iraque, e como se isso não bastasse, há agora conhecimento que foram destruídas varias horas de filme que mostrava como eram torturados os prisioneiros por agentes da CIA, como denuncia um ex-agente que afirmou que durante o interrogatórios de suspeitos de pertencerem à rede terrorista Al-Qaeda foi aplicada a "técnica do afogamento", uma forma de tortura.
As declarações de Kiriakou – é este o nome do ex-agente - ocorrem no momento em que a CIA está envolvida num escândalo de destruição de vídeos de interrogatórios de supostos membros da Al-Qaeda.
Nada mudou.

stockhausen


a noticia da morte de stockhausen foi a única coisa que percebi a propósito deste músico.
Foi a 5 de Dezembro.

a cimeira



Nesta minha ausência algumas coisas aconteceram no mundo, contudo nada de importante.
A Cimeira de Lisboa nada resolveu. A fome vai continuar a matar em África com até aqui.Os genocídios, a corrupção, a mortalidade infantil, vão continuar como até aqui. O saque das matérias primas dos países ocidentais, com o consentimento dos dirigentes africanos, vai continuar como até aqui. As empresas, especialmente as dos países que falam dos direitos humanos, vão continuar a vender armas aos países que os violam,como até aqui. E até Sócrates vai continuar a governar mal como até aqui. Nada mudou.

segunda-feira, novembro 26

"eles estão doidos"

parece que é isto que nos espera.
Será boa altura para o direito de resistência.

sexta-feira, novembro 23

poeta


Para escrever um simples verso,
é preciso conhecer muitas cidades,
homens, animais.
É preciso ter a alma aberta
para o voo dos pássaros,
e ser capaz de perceber
os gestos das flores
que se abrem ao amanhecer.

Para escrever um simples verso,
é preciso viajar
por regiões desconhecidas,
estar preparado para encontros
e desencontros inesperados.
É preciso saber voltar
a momentos de nossa infância
que até hoje não conseguimos compreender.
É preciso lembrar do que sentimos
quando ferimos alguém
que sempre nos desejou o melhor possível.

Para escrever um simples verso,
é preciso passar muitas manhãs
diante do mar, muitas tardes diante do pôr-do-sol,
muitas noites diante de quem amamos.
Tudo isso para escrever um simples verso.

Rainer Maria Rilke

sábado, novembro 17

li...



um livro extraordinário de Sebastião Salgado, com 250 fotografias recolhidas em África nos últimos 30 anos.
O livro, da Taschen, "África” foi dividido em três partes e foi a sua mulher, Lélia, que o organizou.
A primeira parte retrata o Sul (Moçambique, Malawi, Zimbábue, África do Sul e Namíbia), a segunda, a região dos Grandes Lagos (Congo, Ruanda, Burundi, Uganda, Tanzânia e Quênia) e a terceira a região subsaariana (Burkina Faso, Mali, Sudão, Somália, Chad, Mauritânia, Senegal e Etiópia). O prefácio, quem o escreveu foi Mia Couto que escreve esta coisa extraordinária antecipando as fotos terríveis que se seguem.
"A justificação mais fácil é apontar o dedo ao passado, às heranças coloniais. Explicações sobre as razões da violência abundam:motivações étnicas, históricas, tribais. Na realidade, aqui se repete aquilo que é comum ao mundo: a habilidade das elites criminosas manipularem as pessoas e se servirem da vida alheia como simples meio de guardar poder e acumular riqueza. A especificidade africana é muitas vezes invocada pelos próprios africanos para legitimar o inconcebível. Alguns dos regimes africanos já não precisam de inimigos externos para desprestigiar o continente: melhor que ninguém eles atentam contra a dignidade e o bom nome de África"
Até que enfim que se fala sobre a fome em África, sem pedir o perdão da dívida, e sem responsabilizar o Ocidente pela miséria do Continente Africano. Como se os seus corruptos líderes nada tivessem a ver com isso.
Mas o livro!! o livro é de uma violência por vezes sufocante. E um retrato horrível da bestialidade humana, a mais devastadora doença africana do nosso tempo. Há imagens que não imaginava possíveis, imagens que reflectem uma tristeza insuportável de fome, de extermínio, de doença, de guerras, de massacres, de fuga. E mesmo no sorriso das crianças e nas belas mulheres africanas, Salgado consegue fotografar a tristeza, nas suas almas.
Só não são tristes as belas paisagens africanas do deserto, das tempestades, do pôr do sol, como se Salgado nos quisesse dizer que em África só a Natureza está em paz.
Nunca tinha lido nada tão bonito e trágico de África escrito em imagens. E em língua portuguesa.

sexta-feira, novembro 16

o que será...



que contêm os 60 mil documentos que estavam no seu gabinete de Ministro da Defesa que Portas mandou digitalizar?

o aborto




"O ministro da Saúde, Correia de Campos, anunciou hoje que vai apresentar uma queixa ao Ministério Público face à recusa da Ordem dos Médicos em alterar o artigo do seu código deontológico que considera a prática de aborto como uma “falha grave”."
Se a Ordem não acaba com o artigo o Governo tem que acabar com a Ordem.

terça-feira, novembro 13

«¿Por qué no te callas?»



Na XVII Cimeira Ibero-Americana no Chile e depois de Hugo Chaves ter chamado fascista ao ausente Aznar veio o Rei e o Primeiro Ministro de Espanha em sua defesa.
Este pequeno incidente foi o suficiente, para que toda a direita puxasse dos adjectivos, e dissesse que o homem é um ditador, que quer alterar a constituição para se perpetuar no poder, que é populista, que é demagogo etc. etc.
Fosse ele amigo de Bush, e mesmo com estas características, já a direita diria que é um homem frontal, que diz o que pensa, exactamente o que diz de Alberto João Jardim, com quem Hugo Chaves se parece.
Chaves não é personagem com que simpatize, mas a demagogia de Chaves é menos mortal que as mentiras de Bush e dos seus apoiantes-entre os quais Aznar-na guerra do Iraque.

segunda-feira, novembro 12

as coisas


A bengala, as moedas, o chaveiro,
a dócil fechadura, essas tardias
notas que não lerão meus poucos dias
que restam, o baralho e o tabuleiro,
um livro e dentro dele a esmagada
violeta, monumento de uma tarde
por certo inolvidável e olvidada,
o rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora.
Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, copos, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além do nosso olvido
e nunca saberão que já nos fomos.

Jorge Luís Borges

quarta-feira, novembro 7

mãos ao ar...


há algum tempo que venho a ler títulos de artigos de opinião em que se propõe uma baixa nos impostos. E pensei "aqui está uma boa proposta". E comecei a fazer contas. Se me baixarem o meu escalão de IRS que está no máximo, poupo tanto, se baixarem os impostos sobre a gasolina poupo x, se baixarem o Iva poupo Y, e por aí fora, ao mesmo tempo - com um sorriso nos olhos - que ía vendo programas de férias em destinos paradisícos.
Mas quando vi a fotografia de um tal Frasquilho,a defender a baixa dos impostos, pus a mão na carteira, e resolvi ler a proposta. E afinal, o que estes rapazes propoêm (não está sozinho) é baixar os impostos nas empresas, claro, para que assim,se crie mais riqueza, mais postos de trabalho, mais competitividade, blá blá blá.
Coisa que as nossas empresas ainda não fizeram, mas que passariam desde logo a fazer.
Ao contrário se fosse uma diminuição dos impostos sobre o rendimento, já as familias poderiam adquirir mais coisas, comer melhor,comprar mais livros,ir mais ao cinema e ao teatro, enfim, ter uma vida mais digna, e assim criar mais postos de trabalho.
E quando já me estava a ver de livro na mão e toalha estendida em areia fina, interroguei - me.
Mas porque razão estará o tal Frasquilho preocupado com o desemprego em Portugal?