domingo, fevereiro 3

a floresta


de Aleksandr Ostróvski está em cena na Cornucópia até 17 de Fevereiro.

Trata-se de uma sátira aos costumes na melhor tradição do Teatro Russo.

A proprietária, Raissa Pálovna - numa soberba interpretação de Márcia Breia - viúva muito rica e que se faz passar por virtuosa, sem o ser, dirige com mão de ferro a sua herdade e quem nela vive, os seus criados e protegidos, não os deixando ser felizes.

Na sua casa todos a veneram e todos a temem com medo de perder o pouco que lhes dá.

São dois actores ambulantes pobres – um dos quais um sobrinho há muito ausente - que um dia chegam à herdade de Gurmíjskaia, e destroem o equilibrio que a viúva criara à sua volta.

É possivel ou não ser feliz sem dinheiro? é possível ou não os escravos serem livres?

A comédia tem arquétipos de todo o tipo, não falta a avarenta, o pato bravo, a velha criada submissa, e o amante.

De Aleksandr Ostróvski grande dramaturgo está para o Teatro Russo como Moliére para o Francês e Shakespeare para o Inglês. Para se saber quem era, basta ler como via o seu trabalho.

“O dramaturgo não deve inventar o que aconteceu, tem de escrever como se isso acontecesse ou pudesse acontecer; é nisso que consiste o seu trabalho; se concentrar a sua atenção neste aspecto, vão aparecer na sua peça pessoas vivas, vão falar”

É talvez por isso que a peça apesar das três horas de duração consegue manter sempre dialogos vivos de encontros e desencontros.

Bom trabalho da Cornucópia com encenação Luis Miguel Cintra e cenografia de Cristina Reis e obrigatório para quem gosta de bom Teatro.


quarta-feira, janeiro 30

escritos de loucura normal


Carta aos Médicos-chefes dos Manicómios

Senhores,
As leis e os costumes concedem-vos o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredicto. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras?
Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a qual só existem uns poucos predestinados. No entanto rebelamos-nos contra o direito concedido a homens – limitados ou não – de sacramentar com o encarceramento perpétuo as suas investigações no domínio do espírito.
E que encarceramento! Sabe-se – não se sabe o suficiente – que os hospícios, longe de serem asilos, são pavorosos cárceres onde os detentos fornecem uma mão-de-obra gratuita e cómoda, onde os suplícios são a regra, e isso é tolerado pelos senhores. O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é comparável à caserna, à prisão, à masmorra. Não levantaremos aqui a questão dos internamentos  arbitrários, para vos poupar o trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra sequência de ideias e actos humanos. A repressão dos actos anti-sociais é tão ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os actos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social; em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das leis prender todos os homens que pensam e agem.
Sem insistir no carácter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos, na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta da sua concepção de realidade e de todos os actos que dela decorrem.
Que tudo isso seja lembrado amanhã pela manhã, na hora da visita, quando tentarem conversar sem diccionário com esses homens sobre os quais, reconheçam, os senhores só têm a superioridade da força.
(Escritos de Antonin Artaud)

terça-feira, janeiro 29

mudam as moscas


A propósito desta remodelação governamental é bom que não percamos de vista, que não há políticas de ministros mas sim de governos.
Para contas futuras.

segunda-feira, janeiro 28

noticias de jornal


"Um caça F-16 da Força Aérea Portuguesa despenhou-se hoje perto da base de Monte Real, Leiria, mas o piloto ejectou-se, não havendo até ao momento registo de mortos, disse à Lusa fonte militar."
Sabe-se agora, de acordo com o Ministério da Defesa,  que se tratava de um treino simulado para testar o mecanismo do assento.

"O antigo bastonário da Ordem dos Advogados (OA) José Miguel Júdice criticou hoje o actual bastonário, em declarações ao Rádio Clube, por não concretizar as acusações que fez sobre alegados actos de corrupção por dirigentes do Estado."
Ao mesmo tempo que constitui advogado para se defender das acusações.

"Dois terços das perguntas dos deputados ao Governo estão sem resposta"
Questionado o Governo diz que tem coisas mais importantes para responder.

Oliveira e Costa Presidente do BPN diz que nada tem a esconder. 
Estas declarações foram prestadas depois de uma visita ao estrangeiro onde se encontrou com David Coperfield

"Satélite espião norte-americano vai cair na Terra mas não se sabe onde nem o que traz lá
dentro."
"O carburante mais comum nestes corpos celestes é a hydrazina, uma substância química altamente tóxica. Ela enche os depósitos dos aparelhos ditos "clássicos". Mas como se desconhece que corpo é o que está em queda, não se sabe o que é que ele traz dentro. Este químico, irritante, ataca o sistema nervoso central e numa dose mais forte pode ser letal."
Aqui está uma boa noticia para me fechar em casa.

benfica, que futuro? 1

Não gosto de pessoas com a personalidade de Camacho.
Estão sempre desconfiadas com as perguntas que lhes fazem, mostram sempre grande enfado quando estas não lhes agradam procurando desta forma condicionar novas perguntas. Nunca encaram os jornalistas de frente e nunca procuram ouvir e responder em função da pergunta. As respostas são sempre as mesmas, mesmo que nada tenham a ver com as perguntas.
São normalmente comportamentos de pessoas arrogantes e incompetentes, e podemos encontrar personalidade parecida, para não ir mais longe, em Scolari.
De uma coisa tenho a certeza, do jogo ele não quer nem sabe falar.
E este comportamento tem resultado porque a qualidade média dos nossos jornalistas desportivos é igual à qualidade de Camacho. Por isso nunca lhe fizeram as perguntas que lhe deveriam fazer.
Por exemplo:

Queixa-se com frequência que a qualidade do plantel não é do seu agrado, mas para ganhar ao Belenenses, Braga, Guimarães, Leixões Setúbal e a outras equipas que lutam para não descerem de divisão precisa de ter um plantel melhor?

Diz, sempre que empata ou perde, que as bolas não entraram apesar da equipa ter criado oportunidades. Mas então os níveis de eficácia não se treinam? A finalização não faz parte das disciplinas de treino? E se as vitórias são uma questão de sorte que faz Camacho à frente da equipa? Não poderia ser outra pessoa que ganhasse menos e tivesse mais sorte?

Porque razão o guarda redes Quim pontapeia a bola 20 vezes durante um jogo e destas 18 vão para um adversário.
Já lhe disse que a bola deve ser passada aos defesas ou aos médios para iniciar uma jogada de ataque?
E se já lhe disse que faz ele na equipa?

Nelson, em cada vinte lançamentos que faz da linha lateral 10 vão directamente para adversários.
Já lhe disse que os adversários só marcam golos se tiverem a posse de bola?
E se já lhe disse que faz ele na equipa?

Há pelo menos dez equipas na 1ª liga que jogam melhor futebol que o Benfica apesar de terem orçamentos vinte vezes menores. Será que isto não quer dizer nada.
Quer Camacho quer a imprensa só falam de valores individuais, se Cardoso jogou bem, se Rui Costa aguentou os noventa minutos, se Luisão mantém ou não a forma dos anos anteriores. Enaltece-se a qualidade de se jogar em equipa mas só se fala de individualidades.
Claro que as individualidades só têm importância quando o colectivo não joga futebol.
Então e a equipa. Defende bem? Ataca bem? Os médios conseguem fazer chegar a bola aos avançados? Percebe-se que o Benfica tem um estilo de jogo? E o futebol que o Benfica joga, chama mais gente aos estádios ou afasta-os?
A esta pergunta Camacho responde.
“Não é importante quem marca golos o importante é que se marque.”
Com esta resposta Camacho esconde duas coisas.
A incapacidade de o Benfica apresentar um modelo de jogo de ataque, e o desperdício de gastar uma fortuna com vários jogadores e depois não saber tirar partido das suas características.

Outro aspecto importante prende-se com o facto que com Camacho nenhum jovem vê confirmadas as suas qualidades.Prefere o cinzentismo de Maxi Lopes à criatividade de Di Maria prefere o futebol cacete de Petit ao risco Freddy Adu a ineficácia de Nuno Gomes à fantasia de Mantorras.

Camacho nunca assume riscos e a equipa no campo também não os assume.
Ou melhor, só assume o risco de perder e nunca o de ganhar.
Quando a equipa esta empatada ou a perder, faz sempre as mesmas substituições e mesmo quando os suplentes ajudam a resolver, no jogo seguinte lá estão nos seus lugares, isto é no banco de suplentes.
Que motivação é esta. Que estímulos são estes. É assim que se motivam jogadores?
É corrente dizer-se que o que distingue um bom de um mau treinador é a sua capacidade de potenciar a qualidade dos seus jogadores.Camacho confirma em absoluto esta teoria. Os bons jogadores com Camacho são médios e os médios jogadores são maus. É por isso sendo o plantel do Benfica constituído em média por jogadores médios, formam uma má equipa.
Não há diferença significativa entre este Benfica e o Benfica de Fernando Santos, ambos praticam mau futebol apesar do capital investido este ano.

Só espero é que desta vez, não se contratem os jogadores que Camacho gosta - e nós sabemos que tipo de jogadores ele gosta – e no fim da época vai o Camacho e ficam os jogadores.

Ao Benfica cabe-lhe responder às seguintes perguntas.
Que politicas de contratação quer o clube.?
É aceitável que se gastem milhões de euros em jogadores que não jogam? Que responsabilidades tem o treinador que recomenda a contratação de um jogador e não o põe a jogar?
Quem define o modelo de jogo é o clube ou o treinador?
Se for o clube, como entendo que deve ser, deve ser também o clube a contratar.
É o perfil do treinador Camacho – pouco ambicioso no modelo de jogo,antiquado nos métodos, mau potenciador da qualidade futebolística dos jovens jogadores – o adequado para tornar o Benfica de novo numa grande equipa de futebol?
Não
Da responsabilidade do Presidente falarei num post próprio.

P.S. estava prometido este post há algum tempo, mas só depois de uma vitória – que vai servir para mascarar a realidade – encontrei o estimulo que precisava.

quarta-feira, janeiro 23

os trapalhões


GOVERNAM PARA A TELEVISÃO. Fazem legislação para as sondagens. Tomam medidas para mostrar trabalho feito. São peritos em encenação. Vivem obcecados com a propaganda. Anunciam a ideia, anunciam o projecto, anunciam a correcção, anunciam a revisão, anunciam o concurso, anunciam a adjudicação, anunciam a decisão prévia, anunciam a nova correcção, anunciam a primeira inauguração, anunciam a segunda inauguração... As suas decisões servem para afirmar autoridade, sem que o seu conteúdo ou a sua bondade tenham qualquer relevo. Fazem obra para criar emprego, satisfazer os amigos, colocar os correligionários e gastar dinheiro. Como disse o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo, o governo tem cada vez menos capacidade técnica e científica para preparar e tomar decisões. Os ministros confiam nos amigos, no partido e nas empresas complacentes e desprezam as opiniões técnicas e independentes. Os directores-gerais e os presidentes de institutos têm de ser de confiança política, também eles trabalham para as eleições. E o Parlamento? Poderá perguntar-se. Esse vive em sabática de competência. E em jejum de qualificações. Só nos resta acreditar no aforismo: quem governa pela propaganda, pela propaganda morre.
António Barreto «Retrato da Semana» - «Público» de 20 de Janeiro de 2008

domingo, janeiro 20

não tem fim...


A Procuradoria-Geral da República  anunciou  que foi deduzida acusação contra seis arguidos do processo Bragaparques, incluindo o ex-presidente da Câmara de Lisboa Carmona Rodrigues e os antigos vereadores Fontão de Carvalho e Eduarda Napoleão.

“Em causa está a condução por responsáveis eleitos para a Câmara Municipal de Lisboa do processo que conduziu à aquisição pela Parque Mayer/Bragaparques dos terrenos antes ocupados pela Feira Popular,” explicou a PGR.

O caso Bragaparques remonta ao início de 2005 quando a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou por maioria, à excepção da CDU, a permuta dos terrenos do Parque Mayer, da Bragaparques, por parte dos terrenos camarários no espaço da antiga Feira Popular, em Entrecampos.

O negócio envolveu ainda a venda em hasta pública do lote restante de Entrecampos, que foi adquirido pela mesma empresa, que exerceu um direito de preferência que viria a ser contestado pela oposição na autarquia lisboeta.

Mas nada vai acontecer.

A tragédia é que nem eles são condenados, nem demitidos por incompetência  os magistrados que os acusam.


sábado, janeiro 19

iguais...


O Banco de Portugal como se sabe, não supervisiona a Banca, apesar de dever fazê-lo.

Diz  Vítor Constâncio que não tem meios e que confia nos Administradores sobre as informações que lhes pede e que aqueles lhe dão.

Sobre a KPMG que fiscaliza as contas do banco nada se diz, mas esta já disse que informava o Banco de Portugal das irregularidades do BCP.

Temos assim que o poder de supervisão do Banco de Portugal funciona desta maneira.

O Governador pergunta e o Banco mente.

E o Governador sabe que o Banco mente.

Podemos dormir descansados.

Só não podemos, porque aparece agora Manuela Ferreira Leite a dizer que devemos ter cuidado com as criticas ao Banco de Portugal para não destabilizar o Mercado Financeiro.


Hoje eles amanhã nós

não percebo...


Não consigo perceber o que faz ainda o José Manuel Fernandes como Director do Público

o preço do silêncio

Sabe-se agora que o ex-presidente da Comissão Executiva (CEO) do Banco Comercial Português (BCP), Paulo Teixeira Pinto, de 47 anos, saiu do BCP  com uma indemnização de 10 Milhões de Euros e uma reforma vitalícia para o casal de 35 mil euros por mês  durante 14 meses. Os 10 milhões de euros são para que Teixeira Pinto não volte a exercer funções em instituições bancárias concorrentes. Situação pouco provável, atendendo aos maus resultados conseguidos durante o exercício do seu mandato. Quero crer que este valor foi pago para que não divulgasse, entre outros, os  obscuros segredos das  off-shores.

Reforma vitalícia para o casal significa que mesmo que ele morra a mulher, Paula Teixeira da Cruz, continua a beneficiar desta reforma.

É verdadeiramente inacreditável o que se passa no nosso País nesta matéria.

Por um lado enchem as páginas dos jornais dizendo que se deve ganhar em função do mérito e depois negoceia-se coisas destas.

Teixeira Pinto parecia querer lutar contra a prepotência do fundador mas percebe-se agora os argumentos utilizados para ter renunciado à Presidência do BCP.

Estranho também que a mulher tenha aceite ser parte neste acordo como se sentisse merecedora de um prémio de reforma do marido nestas circunstâncias.

Entretanto o Banco anunciou que vai apresentar resultados mais baixos que no ano anterior, e uma das razões que invoca é o pagamento de indemnizações aos seus Administradores.

Para quem enchia a boca de valores éticos, estamos conversados.

São assim os Banqueiros de Deus.

sexta-feira, janeiro 18

gazela da morte obscura

Quero dormir o sono das maçãs, 

fugir do tumulto que há nos cemitérios. 

Quero dormir o sono do menino 

que queria cortar seu coração no alto - mar. 


Não quero que me repitam que os mortos não perdem o sangue; 

que a boca impaciente continua a pedir água. 

Não quero inteirar-me dos martírios que a erva nos dá, 

nem da lua com boca de serpente 

que trabalha antes do amanhecer. 


Quero dormir um pouco, 

um pouco, um minuto, um século; 

mas saibam todos que ainda não morri; 

que em meus lábios há um estábulo de ouro; 

que sou o querido amigo do vento Oeste; 

que sou a sombra imensa das minhas lágrimas. 


Cobre-me com um véu ao amanhecer, 

pois vai atirar-me mãos cheias de formigas, 

e com água dura molhar meus sapatos 

para mais deslizar o ferrão do seu lacrau.

 

Porque quero dormir o sono das maçãs 

para aprender um pranto que me limpe de terra; 

porque quero viver com o menino obscuro 

que queria cortar seu coração no alto - mar. 


Federico Garcia Lorca

sábado, janeiro 12

Cassandra’s Dream


Gosto muito de Woody Allen.

Sempre que estreia um filme seu, vou ver, porque sei que vou ver um filme sobre pessoas, quase sempre numa historia bem contada.

Nem todos os seus filmes são obras primas. Mas são sempre filmes  com uma direcção de actores excepcional que merecem ser vistos. 

Outra vez situado em Londres, “Cassandra’s Dream” magnificamente interpretado por  Ewan McGregor e Colin Farrell, dois irmãos que cometem um crime bárbaro em troca de ascensão social. Entre ambição desmedida e mentiras o filme vai-se desenvolvendo até que cometem um homicídio.  O drama passa então a desenvolver-se a partir dos problemas de consciência, de um dos irmãos,  agravada pela diferença significativa das suas personalidades o que os conduz a uma tragédia ainda maior.

O Sonho de Cassandra  é um filme com muito boas interpretações, realizado com elegância e economia de meios, Woody Allen fez um filme hipnotizante, que conta com uma banda  sonora original, assinada por Philip Glass, que muito contribui para a boa atmosfera do filme.


Fico à espera do próximo filme que entretanto já realizou agora em Barcelona com Penélope Cruz a Scarlett Johansson.


quinta-feira, janeiro 10

o novo aeroporto

Disse em 22 de Novembro de 2005 o Primeiro-Ministro na sessão de encerramento da Apresentação Pública do Novo Aeroporto «Lisboa 2017: Um aeroporto com futuro”
“Mas, a verdade, é que de todas essas localizações a melhor, aquela que melhor serve os interesses do País é a da Ota.”
Em 27 de Maio de 2007 disse Mário Lino Ministro das Obras Públicas 
«O que eu acho faraónico é fazer o aeroporto na Margem Sul, onde não há gente, onde não há escolas, onde não há hospitais, onde não há cidades, nem indústria, comércio, hotéis e onde há questões da maior relevância que é necessário preservar.»
No entender de Mário Lino, o novo aeroporto devia ser na Ota porque «corresponde à estratégia de desenvolvimento que o Governo entende que deve ser seguida, onde está 40 por cento da população, onde estão as vilas, aldeias, indústrias e comércio, hotéis e turismo». Disse ainda o ministro que já tinham sido abertas propostas de três consórcios internacionais de projectos de arquitectura.
Parecia que nada impedia que se fizesse um aeroporto em que poucos percebiam as vantagens.
A polémica foi tanta, que depois de vários estudos apresentados pelos Lobis dos interesses aos
dois locais possíveis, Ota e Alcochete, o Governo manda o LNEC fazer um estudo. E o LNEC estuda e diz que Alcochete é a melhor localização, e diz também que é do ponto de vista técnico e financeiro é globalmente mais favorável do que a Ota.

Hoje Primeiro Ministro anuncia ao País que o novo aeroporto vai ser em Alcochete.

Dois aspectos essenciais a reter.

1º Estava tudo em condições para se fazer um aeroporto de 5,1 Mil Milhões de euros que se sabe agora não servia os interesses do País.

2º O mesmo Governo que ia fazer um aeroporto onde não fazia falta teve coragem (apesar de
pressionado) de emendar a mão e voltar atrás com uma decisão que já estava tomada.

Faltam agora quatro coisas.
A demissão do Ministro das Obras Públicas (nada nos garante que em futuras obras a leviandade não seja a mesma)
Que o Governo no futuro ponha à discussão Publica obras importantes para que não se
cometam erros destes.
Que sejam divulgados os custos dos seis estudos e relatórios de análise que foram realizados por consultores internacionais, a quem o Governo pediu, nestes últimos cinco meses para, olhando
para os estudos realizados, poderem confirmar as conclusões que Ota era a melhor solução.
Saber se foi negociado com a Lusoponte o valor a pagar por se ter que fazer uma nova ponte sobre o Tejo.
Ah, e a partir de hoje vamos assistir aquele Carnaval interessantíssimo que é ver os mesmos personagens que defendiam a Ota passarem a defender Alcochete com os mesmos argumentos e com a mesma convicção.
É sempre a parte mais engraçada, quando nos querem fazer passar por tolos.

um homem sem qualidades


Caiu definitivamente a mascara a Sócrates.
Prometeu referendar o Tratado Europeu e apesar de ser uma promessa que consta no programa de Governo vai propor a ratificação do Tratado por via Parlamentar, exactamente ao contrário do que fez com a lei da despenalização do aborto, em que poderia aprová-la no Parlamento e decidiu referendá-la.
Tudo evidentemente em nome do interesse europeu.
A opinião dos cidadãos nesta matéria não é para ele importante.
Não precisava de invocar as pressões que outros dirigentes europeus lhe teriam feito, porque ninguém acredita nisso.
Como se Gordon Brown, Sarkozy, ou Angela Merkel precisassem de Sócrates para alguma coisa.
Nada que não se esperasse. Já aqui o tinha escrito.
Esta atitude do primeiro ministro levanta uma questão que é esta.
Qual é a importância que ele atribuiu aos cidadãos quando se trata de decisões fundamentais para a nossa vida colectiva?
Nenhuma.
Definitivamente não presta.

quarta-feira, janeiro 9

No ponto onde o silêncio


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

Sophia de Mello Breyner Andresen


terça-feira, janeiro 8

tão amigos...

Sousa Tavares escreveu na sua crónica do Expresso no passado fim de semana, entre outras coisas, o seguinte:
"Bem-vindo ao ano de 2008 e a um país onde o terror passou a ser lei e o Estado democrático e republicano foi substituído por um Estado policial onde a totalidade dos cidadãos assume a condição de vigilantes da lei e da virtude e a totalidade das forças policiais estão mobilizadas para acorrer a todo o lado e reprimir na hora os prevaricadores dos bons costumes. Havia a Arábia Saudita, o Irão e os Estados Unidos. Agora há mais um país oficialmente fundamentalista: Portugal."...
"Só alguém com sérios problemas mentais poderia ter feito esta lei. E só uma Assembleia de deputados incompetentes e sem coragem nem vontade própria a poderia ter aprovado. É uma lei à medida de um país de polícias e de eunucos.."
Estou de acordo com uma grande parte do que escreve Sousa Tavares, e desconfio da bondade de um Governo que fecha Centros de Saúde e diz-se preocupado com os fumadores passivos.
Parece que hoje foi a vez de fazer as pazes com Sócrates num almoço no Gambrinus que durou até às quatro.
Ou será que Sócrates vai modificar a lei para permitir que Sousa Tavares possa fumar onde quiser?
Depois deste almoço fico cheio de curiosidade sobre o teor das próximas crónicas de Sousa Tavares.

domingo, janeiro 6

morreu um mestre


É difícil ser tão frontal e assumir as consequências da sua liberdade critica.

Não houve outro igual nas nossas letras.

E é pena que não haja mais Pachecos na nossa literatura. Alguém conhece?

E era assim que via os outros.


O homem tem uma cara de parvo chapado. Eu estou farto de ler o gajo. Um dia, entro numa livraria e pego nisto ("Boa Noite") e vejo: "Romance". Eu desato a rir a gargalhada! Isto lê-se em dez minutos, este gajo deve ser mas é maluco!"
Luiz Pacheco, sobre Pedro Paixão, em entrevista ao Jornal de Letras de 24 de Setembro de 1997

"O Lobo Antunes e o Saramago não estão a escrever para vocês nem para mim. Estão a escrever uma coisa género "standard", que é o romance internacional. (...) Como sabem que vão ser traduzidos, têm de fazer uma linguagem o mais corrente possível, mais linear, mais badalhoca."
Idem, ibidem

"O Big Brother é um disparate, mas pior é o Emídio Rangel".
Luiz Pacheco (escritor)
Focus, citado por Tal&Qual, 12-Abr-01

Agustina [Bessa-Luís] é a figura essencial na ficção, não tem parceiro. Ao pé dela, falar do Saramago é como falar do cão... A Agustina é ímpar a retratar os meios ligados ao poder e ao dinheiro.
(...)

O Eduardo Lourenço (...) já está um bocado gagá, mas foi muito importante. A Heterodoxia é um grande livro, que mudou a minha cabeça: tão contundente, tão extraordinário, tinha umas coisas de filosofia que, naquele momento, nem sequer consegui acompanhar.
(...)

[Eduardo Prado Coelho] é um tipo muito esperto, usa a inteligência para navegar. É muito antipático para mim, não gosto dele nem da maneira como escreve, mas não escreve mal.
(...) 

Sem papas na língua.

 

terça-feira, janeiro 1

para começar bem o ano


 

Não há melhor maneira de começar bem o ano, no que à musica diz respeito, do que ouvir  "As variações Goldberg" que  resultaram de uma encomenda, feita a Johann Sebastian Bach  pelo Conde Kaiserling, um aristocrata melómano.  
O conde Kaiserling sofria de insónias, pelo que decidiu encomendar a J. S. Bach umas peças para cravo, para Johann Goldberg que era um jovem  cravista talentoso, e aluno de Bach em Leipzig.
Bach  nesta obra explora no cravo todos os seus estados de espírito e a sua complexidade só  é comparável a outras duas obras do mesmo autor, os Livros 1 e 2 do Cravo Bem Temperado.  
A melhor versão considerada unanimemente pelos críticos é a tocada por Glenn Gould.  
Esta obra requer um grande virtuosismo por parte do interprete  e nenhum outro conseguiu imprimir maior claridade ao som do piano que Glenn Gould, que rejeita o uso do pedal produzindo assim unicamente  os sons que querem os seus dedos.  
Não deixem de a ouvir.


domingo, dezembro 30

Oscar Peterson


Compositor, pianista de Jazz e um dos melhores de  sempre. 

Tinha 82 anos, morreu segunda-feira, na sua residência, em Toronto.


Ao piano desenvolveu um estilo inconfundível e tocou com os maiores músicos da sua geração entre os quais Duke Elligton Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Carmen McRae, Louis Armstrong, Lester Young, Count Basie, Charlie Parker, Quincy Jones, Stan Getz, Coleman Hawkins, Dizzy Gillespie, Roy Eldridge, Clark Terry, Freddie Hubbard.

 

Em 1997, recebeu um Grammy pelo conjunto da sua obra. 


Tive o privilégio de o ver tocar em Nova Iorque no maior espectáculo de Jazz a que assisti.


Com a sua morte  perde o Jazz um dos seus maiores autores e interpretes.

sexta-feira, dezembro 28

te quiero...


Te quiero a las diez.
Te quiero a las diez de la mañana,
y a las once, y a las doce del día.
Te quiero con toda mi alma y
con todo mi cuerpo,
a veces, en las tardes de lluvia.
Pero a las dos de la tarde,
o a las tres,
cuando me pongo a pensar en nosotros dos,
y tú piensas en la comida
o en el trabajo diario,
o en las diversiones que no tienes,
me pongo a odiarte sordamente,
con la mitad del odio que guardo para mí. Luego vuelvo a quererte,
cuando nos acostamos y siento
que estás hecha para mi,
que de algún modo me lo dicen tu rodilla
y tu vientre, que mis manos me convencen de ello,
y que no hay otro lugar en donde yo me venga,
a donde yo vaya, mejor que tu cuerpo.
Tú vienes toda entera a mi encuentro,
y los dos desaparecemos un instante,
nos metemos en la boca de Dios,
hasta que yo te digo que tengo hambre y sueño. Todos los días te quiero y te odio irremediablemente.
Y hay días también,
hay horas, en que no te conozco,
en que me eres ajena como la mujer de otro.
Me preocupan los hombres,
me preocupo yo, me distraen mis penas.
Es probable que no piense en ti durante mucho tiempo.
Ya ves.
¿Quién podría quererte menos que yo, amor mío?

Jaime Sabines

quarta-feira, dezembro 26

o fundamentalista relutante

Em cima da minha mesa, junto a tantos outros, há espera de serem lidos, estava um livro a que hoje deitei mão.
Não esperava que as 128 páginas do Fundamentalista Relutante me entusiasmassem tanto apesar de ter lido criticas bastante boas.
Escrito por Mohsin Hamid a história centra-se um jovem promissor paquistanês, licenciado em Princeton onde foi um dos melhores alunos. Trabalha numa grande empresa de Nova Iorque que faz avaliações de empresas,com bom vencimento,está apaixonado por uma jovem Americana,rica,de Upper East Side que o vai levar a fazer parte da elite de Manhattan. Nada parece impedir que o jovem Changez de 22 anos faça uma ascensão meteórica na sociedade americana.
Mas o 11 de Setembro muda a vida deste jovem dividido entre os valores americanos a as saudades da sua família, e da sua terra, que começava entretanto o conflito com a Índia.
A cor da sua pele, os seus traços orientais e a desconfiança da sociedade Americana logo após o 11 de Setembro a todos os árabes, transforma Changez, que passa de um emigrante de sucesso a anti americano convicto.
E assim perde o emprego onde era um dos melhores, perde o amor de Erica - atormentada pela lembrança do namorado morto - e regressa à sua terra.
O livro constroi-se numa conversa que é mais um monologo com um americano desconhecido numa mesa de um café em Lahore.
Encontro fatídico este.
Que fará um Americano desconhecido num café de um País em convulsão?
Porque estará armado?
É de facto uma grande e reconfortante surpresa este belo livro nesta fria tarde de Dezembro, e para mim um dos melhores livros de 2007.

domingo, dezembro 23

"Natal de 1971" ou de 2007?



Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal se ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida um
mundo que não há?
O dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena

quarta-feira, dezembro 19

desde el umbral del sueño...



Lá dos umbrais de um sonho me chamaram...
Era aquela voz boa, voz querida.
- Diz-me: virás comigo visitar a alma?...
No coração me entrava uma carícia.
- Contigo, sempre... E avancei no sonho
por uma longa e recta galeria,
sentindo o só roçar da veste pura
e o suave palpitar da mão amiga.

António Machado

sábado, dezembro 15

niemeyer faz hoje cem anos


este extraordinário arquitecto vê-se assim:
"Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta,
dura, inflexível, criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual
que encontro nas montanhas do meu país.
No curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein."
Niemeyer sem anos.

a corrente


Sente raiva do passado
que o mantém acorrentado.
Sente raiva da corrente
a puxá-lo para a frente
e a fazer do seu futuro
o retorno ao chão escuro
onde jaz envilecida
certa promessa de vida
de onde brotam cogumelos
venenosos, amarelos,
e encaracoladas lesmas
deglutindo-se a si mesmas.

Drummond de Andrade

sexta-feira, dezembro 14

mão amiga...


trouxe até mim uma brochura de uma colectânea de discos editada recentemente pela Sony, de Glenn Gould "Complete Original Jacket Collection - Coffret 80 CD (Edition limitée)" que tratei logo de procurar comprar.
Procurei no site da Fnac e lá encontrei a referência mas sem estar disponível.Teria que encomendar. Prazo de espera mês e meio.
Procurei na Fnac francesa e lá, estava disponível, e pronto para entrega, e (que surpresa) mais barato cerca de 75€. Procurei encomendar directamente de Paris – era mais barato e a entrega era imediata- mas não podia, se queria comprar na Fnac teria que comprar através da Fnac portuguesa que era mais caro e demorava mês e meio a chegar.
Perguntada a Fnac portuguesa a razão pela qual se encomendasse em Portugal demorava um mês e meio a chegar uma coisa que estava disponível na Fnac dos Campos Elísios, responderam-me uma coisa de que vos vou poupar, mas que tinha a ver com o facto do nosso país e a Espanha fazerem parte de uma coisa qualquer, e que de acordo com uma divisão geo-estratégica da Fnac não podiam encomendar a França, teriam que encomendar directamente à Sony nos EUA. Se eu vivesse na Bélgica na Alemanha no Luxemburgo, enfim, em qualquer país europeu que não em Portugal ou Espanha poder-se-ia encomendar os discos de Paris, mas assim não. Estratégias.
Mas como tenho uma especialista cá em casa nestas coisas de comprar pela Net, vou receber hoje, dois dias depois da encomenda uma caixa de 80 Cds do Glenn Gould com as capas das versões originais de vinil, a um preço mais barato que na Fnac Francesa muito mais barato que na Fnac Portuguesa e muito mais rápido que qualquer das duas.
Ah, vem de Londres.
Vou repensar a minha relação com a Fnac enquanto espero ansioso pelo carteiro.

byblos



é sempre uma boa noticia a abertura de uma nova livraria, ainda por cima quando se anuncia que a sua filosofia de funcionamento assenta sobre o leitor e não sobre o consumidor.
Mas é sempre uma má noticia quando se faz uma pré-inauguração com os chamados Vips. Alguns dos convidados nunca mais lá põem os pés. Se é com os leitores que a Livraria conta de futuro porque não foram eles os convidados?

quinta-feira, dezembro 13

tortura...



Já não bastava que o Mundo conhecesse o que as tropas dos EUA fizeram na prisão de Abu Ghraib.
As fotos divulgadas nessa altura para a opinião pública mundial mostravam os prisioneiros a serem humilhados e a sofrerem várias formas de tortura física e psicológica.
Desde cães utilizados para aterrorizar os prisioneiros, mulheres obrigadas a despirem-se em frente aos guardas e grupos de presos obrigados a posar nus e a práticas sexuais em grupo. Há ainda fotos que registam os guardas a urinar nos presos, e a sodomizar detidos com bastões.

Os acontecimentos na prisão de Abu Ghraib foram um dos mais negros episódios da invasão norte-americana do Iraque, e como se isso não bastasse, há agora conhecimento que foram destruídas varias horas de filme que mostrava como eram torturados os prisioneiros por agentes da CIA, como denuncia um ex-agente que afirmou que durante o interrogatórios de suspeitos de pertencerem à rede terrorista Al-Qaeda foi aplicada a "técnica do afogamento", uma forma de tortura.
As declarações de Kiriakou – é este o nome do ex-agente - ocorrem no momento em que a CIA está envolvida num escândalo de destruição de vídeos de interrogatórios de supostos membros da Al-Qaeda.
Nada mudou.

stockhausen


a noticia da morte de stockhausen foi a única coisa que percebi a propósito deste músico.
Foi a 5 de Dezembro.

a cimeira



Nesta minha ausência algumas coisas aconteceram no mundo, contudo nada de importante.
A Cimeira de Lisboa nada resolveu. A fome vai continuar a matar em África com até aqui.Os genocídios, a corrupção, a mortalidade infantil, vão continuar como até aqui. O saque das matérias primas dos países ocidentais, com o consentimento dos dirigentes africanos, vai continuar como até aqui. As empresas, especialmente as dos países que falam dos direitos humanos, vão continuar a vender armas aos países que os violam,como até aqui. E até Sócrates vai continuar a governar mal como até aqui. Nada mudou.

segunda-feira, novembro 26

"eles estão doidos"

parece que é isto que nos espera.
Será boa altura para o direito de resistência.

sexta-feira, novembro 23

poeta


Para escrever um simples verso,
é preciso conhecer muitas cidades,
homens, animais.
É preciso ter a alma aberta
para o voo dos pássaros,
e ser capaz de perceber
os gestos das flores
que se abrem ao amanhecer.

Para escrever um simples verso,
é preciso viajar
por regiões desconhecidas,
estar preparado para encontros
e desencontros inesperados.
É preciso saber voltar
a momentos de nossa infância
que até hoje não conseguimos compreender.
É preciso lembrar do que sentimos
quando ferimos alguém
que sempre nos desejou o melhor possível.

Para escrever um simples verso,
é preciso passar muitas manhãs
diante do mar, muitas tardes diante do pôr-do-sol,
muitas noites diante de quem amamos.
Tudo isso para escrever um simples verso.

Rainer Maria Rilke

sábado, novembro 17

li...



um livro extraordinário de Sebastião Salgado, com 250 fotografias recolhidas em África nos últimos 30 anos.
O livro, da Taschen, "África” foi dividido em três partes e foi a sua mulher, Lélia, que o organizou.
A primeira parte retrata o Sul (Moçambique, Malawi, Zimbábue, África do Sul e Namíbia), a segunda, a região dos Grandes Lagos (Congo, Ruanda, Burundi, Uganda, Tanzânia e Quênia) e a terceira a região subsaariana (Burkina Faso, Mali, Sudão, Somália, Chad, Mauritânia, Senegal e Etiópia). O prefácio, quem o escreveu foi Mia Couto que escreve esta coisa extraordinária antecipando as fotos terríveis que se seguem.
"A justificação mais fácil é apontar o dedo ao passado, às heranças coloniais. Explicações sobre as razões da violência abundam:motivações étnicas, históricas, tribais. Na realidade, aqui se repete aquilo que é comum ao mundo: a habilidade das elites criminosas manipularem as pessoas e se servirem da vida alheia como simples meio de guardar poder e acumular riqueza. A especificidade africana é muitas vezes invocada pelos próprios africanos para legitimar o inconcebível. Alguns dos regimes africanos já não precisam de inimigos externos para desprestigiar o continente: melhor que ninguém eles atentam contra a dignidade e o bom nome de África"
Até que enfim que se fala sobre a fome em África, sem pedir o perdão da dívida, e sem responsabilizar o Ocidente pela miséria do Continente Africano. Como se os seus corruptos líderes nada tivessem a ver com isso.
Mas o livro!! o livro é de uma violência por vezes sufocante. E um retrato horrível da bestialidade humana, a mais devastadora doença africana do nosso tempo. Há imagens que não imaginava possíveis, imagens que reflectem uma tristeza insuportável de fome, de extermínio, de doença, de guerras, de massacres, de fuga. E mesmo no sorriso das crianças e nas belas mulheres africanas, Salgado consegue fotografar a tristeza, nas suas almas.
Só não são tristes as belas paisagens africanas do deserto, das tempestades, do pôr do sol, como se Salgado nos quisesse dizer que em África só a Natureza está em paz.
Nunca tinha lido nada tão bonito e trágico de África escrito em imagens. E em língua portuguesa.

sexta-feira, novembro 16

o que será...



que contêm os 60 mil documentos que estavam no seu gabinete de Ministro da Defesa que Portas mandou digitalizar?

o aborto




"O ministro da Saúde, Correia de Campos, anunciou hoje que vai apresentar uma queixa ao Ministério Público face à recusa da Ordem dos Médicos em alterar o artigo do seu código deontológico que considera a prática de aborto como uma “falha grave”."
Se a Ordem não acaba com o artigo o Governo tem que acabar com a Ordem.

terça-feira, novembro 13

«¿Por qué no te callas?»



Na XVII Cimeira Ibero-Americana no Chile e depois de Hugo Chaves ter chamado fascista ao ausente Aznar veio o Rei e o Primeiro Ministro de Espanha em sua defesa.
Este pequeno incidente foi o suficiente, para que toda a direita puxasse dos adjectivos, e dissesse que o homem é um ditador, que quer alterar a constituição para se perpetuar no poder, que é populista, que é demagogo etc. etc.
Fosse ele amigo de Bush, e mesmo com estas características, já a direita diria que é um homem frontal, que diz o que pensa, exactamente o que diz de Alberto João Jardim, com quem Hugo Chaves se parece.
Chaves não é personagem com que simpatize, mas a demagogia de Chaves é menos mortal que as mentiras de Bush e dos seus apoiantes-entre os quais Aznar-na guerra do Iraque.

segunda-feira, novembro 12

as coisas


A bengala, as moedas, o chaveiro,
a dócil fechadura, essas tardias
notas que não lerão meus poucos dias
que restam, o baralho e o tabuleiro,
um livro e dentro dele a esmagada
violeta, monumento de uma tarde
por certo inolvidável e olvidada,
o rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora.
Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, copos, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além do nosso olvido
e nunca saberão que já nos fomos.

Jorge Luís Borges

quarta-feira, novembro 7

mãos ao ar...


há algum tempo que venho a ler títulos de artigos de opinião em que se propõe uma baixa nos impostos. E pensei "aqui está uma boa proposta". E comecei a fazer contas. Se me baixarem o meu escalão de IRS que está no máximo, poupo tanto, se baixarem os impostos sobre a gasolina poupo x, se baixarem o Iva poupo Y, e por aí fora, ao mesmo tempo - com um sorriso nos olhos - que ía vendo programas de férias em destinos paradisícos.
Mas quando vi a fotografia de um tal Frasquilho,a defender a baixa dos impostos, pus a mão na carteira, e resolvi ler a proposta. E afinal, o que estes rapazes propoêm (não está sozinho) é baixar os impostos nas empresas, claro, para que assim,se crie mais riqueza, mais postos de trabalho, mais competitividade, blá blá blá.
Coisa que as nossas empresas ainda não fizeram, mas que passariam desde logo a fazer.
Ao contrário se fosse uma diminuição dos impostos sobre o rendimento, já as familias poderiam adquirir mais coisas, comer melhor,comprar mais livros,ir mais ao cinema e ao teatro, enfim, ter uma vida mais digna, e assim criar mais postos de trabalho.
E quando já me estava a ver de livro na mão e toalha estendida em areia fina, interroguei - me.
Mas porque razão estará o tal Frasquilho preocupado com o desemprego em Portugal?

segunda-feira, novembro 5

Rio das Flores



Miguel de Sousa Tavares escreveu um livro de 627 páginas- mais 100 que o Equador - que conta a história de uma família latifundiária alentejana em três gerações e tem como cenário, o Alentejo, Espanha e Brasil, e que li na maior parte do tempo com agrado.
Não deixo no entanto de encontrar algumas fragilidades no livro que tanta expectativa criou no seu lançamento.
O livro conta uma história que se lê com facilidade mas não deixa nenhuma margem ao leitor. Está lá tudo o que MST quer dizer.
As descrições são longas como se não pudesse ser de outra maneira. MST tem medo que os seus leitores não percebam o que ele quer dizer e torna assim o livro excessivamente descritivo.
Por outro lado tem urgência a que fiquemos a saber tudo o que uma personagem pensa acerca de tudo, caindo em exageros que não ficam bem no personagem que escolheu.

Reparem nesta.

Maria da Glória a matriarca da família com cerca de 50 anos, mulher de um latifundiário Alentejano que casou aos 18 anos que não estudou nem trabalhou tem esta opinião sobre Salazar. Isto nos anos 40.

“não sabia, talvez, o suficiente acerca de política para explicar porquê, mas o seu instinto não a deixava gostar do que via, do que ouvia, do que sentia. Talvez fosse o homem, mais do que o regime: ela não gostava de Salazar. Não gostava da sua voz de falsete que soava a manha a cada frase, não gostava da sua cara de merceeiro beirão, mais esperto que a freguesia, não gostava da sua pequena estatura (lembrava-se de Manuel Custódio ter dito um dia: "desconfiem sempre de homens baixinhos na política." Mas acima de tudo, não gostava de alguns traços tão louvados da sua personalidade: a de homem sem mulher, sem amantes, "casado com a Pátria", sem filhos, sem amigos, sem irmãos próximos, sem vícios, sem luxos nem fraquezas, que nunca ninguém vira comprar um livro, um quadro, um disco, fumar um charuto ou até um cigarro, ver uma tourada, ir à praia ou ao cinema, gostar de futebol ou de jazz ou mesmo de fado, que nunca viajara fora de Portugal nem sequer a Badajoz, que nunca aceitara deixar-se confrontar numa discussão política ou num artigo de jornal.”

Uma mulher sem instrução que não gosta de Salazar porque nunca “ninguém vira comprar um livro” nem gostar de jazz? Nos anos quarenta? Ninguém acredita nisto.

Não se deve partir para esta leitura com expectativas muito altas. Estamos na presença de um livro de entretenimento nada mais do que isso. De razoável entretenimento. E se as vendas atingirem os cerca de 500 mil exemplares que o Equador vendeu, isso é bom, significa que há mais gente a ler.
Gosto do MST como jornalista e cronista e gosto da sua postura ética, mas para que MST se possa tornar num bom escritor, era preciso que conseguisse escrever um romance em 150 paginas e isso ele não é capaz de fazer.
Apesar de tudo, vou esperar e comprar o próximo.

Rio das Flores
Miguel Sousa Tavares - Oficina do Livro 

sexta-feira, novembro 2

aqui está um texto elucidativo sobre educação

oxalá




não seja verdade o que se publicou
sobre Catherine Deneuve na recente
biografia não autorizada de Bernard Violet

erros fatais


há duas semanas o Banco Mundial divulgou o seu 30º relatório, em que considera que a agricultura é fundamental para combater a pobreza mundial.
Esta conclusão surge depois do mesmo Banco ter admitido que se enganou por ter estimulado os camponeses a desinvestir na agricultura.
O desenvestimento nos ultimos anos foi geral já que 75% dos pobres do mundo vivem em zonas rurais e apenas 4% do apoio oficial do Banco era dirigido à agricultura.
Pena é que não possam ressuscitar quem morreu em resultado desta política.

quinta-feira, novembro 1

vou ter um bom fim de semana...


a ouvir Rostropovich tocar as suites de J. S.Bach

um casaco


Fiz à poesia um casaco
Todo bordado e com rendas
De velhas mitologias,
Do pescoço até aos pés;
Mas os asnos mo roubaram,
Usaram-no aos olhos do mundo,
Como se o tivessem feito.
Poesia, deixa-os usá-lo,
Pois que há muito mais coragem
Em passear-se todo nu

W.B.Yeats