sexta-feira, janeiro 6
sábado, setembro 13
brando...mas reles
Aprendi há muito tempo que as pessoas são muito mais importantes do que os papeis que representam sejam eles ou elas actores, médicos, políticos etc.
domingo, julho 6
couves & alforrecas

A revista Ler trouxe-nos outra vez bons artigos, mas também nos trouxe uma entrevista com Margarida Rebelo Pinto. Não percebo o interesse numa entrevista de uma escritora que foi desmascarada por João Pedro Jeorge em Maio de 2006 num livrinho que guardo, e em que é feita a maior desmontagem de uma fraude, que já li, em relação a um conjunto de livros de uma escritora que vendia muito em Portugal.
Não se tratava de saber que Rebelo Pinto escrevia bem ou mal, mas de mostrar que a autora não só copiava textos seus, de outros livros, mas também de livros que não lhe pertenciam. Não eram as ideias que a mulher copiava, era o texto. Estávamos perante uma fraude e apesar da autora ter tentado através do Tribunal que o livro – Couves & Alforrecas - não fosse publicado, a verdade é que não li em lado nenhum a refutação às criticas que João Pedro lhe fez, apenas indignação. Em boa verdade não podia MRP vir dizer que aquilo que era lido em “Pessoas Como Nós” não vinha também escrito em “Alma de Pássaro” ou no "Sei Lá" já que era facilmente demonstrável.
Foi assim que se ficou a saber que a MRP era um embuste.
Daí que se pergunte que interesse pode ter a reviste Ler numa impostora.
Se dúvidas houvesse em relação ao carácter da entrevistada bastava ler como ela reage à pergunta fatídica: “Ele diz que há parágrafos integrais transpostos de uns livros para outros” e MRP entre ter desligado o gravador que registava a entrevista, ter dado a entrevista por acabada, ter dito uma coisa e o seu contrário, nada faltou.
Não devia estar à espera que tudo fosse publicado na entrevista.
É de facto uma mulher sem nenhum interesse, e não percebo o critério editorial que entrevista e põe uma impostora na Capa de uma revista de livros.
Pois é, não há coincidências.
sábado, julho 5
sábado, junho 7
os livros da feira
sem nenhum interesse pela polémica que se levantou a propósito da Feira do Livro, lá fui como em todos os anos, à procura de livros, que noutras alturas vai faltando tempo. - Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa
- Quatro Ventos, Sete Mares de Pedro Mota
- Entre dois Palácios de Naguib Mahfouz
- À Sombra das Chuteiras Imortais de Nelson Rodrigues
- O Reino da Estupidez de Jorge de Sena
a ler

domingo, maio 18
Rubem Fonseca

terça-feira, março 4
de seda...

Fica assim, quero olhar para ti, olhei-te muito mas não eras para mim, agora és para mim, não te aproximes, por favor, fica como estás, temos uma noite para nós e eu quero olhar para ti, nunca te vi assim, o teu corpo para mim, a tua pele, fecha os olhos, e acaricia-te, por favor, não abras os olhos se puderes, e acaricia-te, são tão bonitas as tuas mãos, sonhei com elas tantas vezes, agora quero vê-las, gosto de as ver na tua pele, assim, por favor, continua, não abras os olhos, eu estou aqui, ninguem nos pode ver e eu estou ao pé de ti, acaricia-te meu senhor amado, acaricia o teu sexo, peço-te, devagar, é bonita a tua mão no teu sexo, não pares, eu gosto de olhar para ele e de olhar para ti meu senhor amado, não abras os olhos, ainda não, não tenhas medo, estou perto de ti, sentes-me? Estou aqui, posso aflorar-te, isto é seda, sentes?, é a seda do meu vestido, não abras os olhos e terás a minha pele, terás os meus lábios, quando te tocar pela primeira vez será com os meus lábios, tu não saberás onde, a determinada altura sentirás o calor dos meus lábios, sobre ti, não podes saber onde se não abrires os olhos, não os abras, sentirás a minha boca onde não sabes, de repente, talvez seja nos teus olhos, apoiarei a minha boca nas palpebras e nas pestanas, sentirás o calor entrar na tua cabeça, e os meus lábios nos teus olhos, dentro, ou talvez seja no teu sexo, apoiarei os meus lábios, lá em baixo, e descerrá-los-ei descendo pouco a pouco, deixarei que o teu sexo entreabra a minha boca, entrando entre os meus lábios e empurrando a minha língua, a minha saliva descerá ao longo da tua pele até á tua mão, o meu beijo e a tua mão, um dentro do outro, no teu sexo, até que finalmente te beijarei no coração, porque te quero, morderei a pele que bate no teu coração, porque te quero,e com o coração entre os meus lábios tu serás meu, de verdade, com a minha boca no coração tu serás meu, para sempre, se não acreditas em mim abre os olhos meu senhor amado e olha para mim, sou eu, quem poderá alguma vez apagar este instante que acontece, e este meu corpo sem mais seda, nas tuas mãos que lhe tocam, os teus olhos que olham para ele, os teus dedos no meu sexo, a tua língua nos meus lábios, tu a deslizar debaixo de mim, pegas nas minhas ancas, levantas-me, deixas-me deslizar sobre o teu sexo, devagar, quem poderá apagar isto, tu dentro de mim mexendo-te devagar, as tuas mãos no meu rosto, os dedos na minha boca, o prazer nos teus olhos, a tua voz, mexes-te devagar mas até me magoar, o meu prazer, a minha voz, o meu corpo sobre o teu, as tuas costas a levantarem-me, os teu braços a segurarem-me, os golpes dentro de mim,é violência doce, vejo os teu olhos procurarem nos meus, querem saber até onde me podem magoar, até onde quiseres, meu senhor amado, não há fim, não acabará, vês? Ninguém poderá apagar este instante que acontece, para sempre atirarás a cabeça para trás, gritando, para sempre fecharei os olhos arrancando as lágrimas das minhas pestanas, a minha voz dentro da tua, a tua violência a manter-me agarrada já não há tempo para fugir nem força para resistir, tinha que ser este instante, e este instante é, acredita em mim, meu senhor amado, este instante será, de agora em diante, será, até ao fim.-Não nos voltaremos a ver, Senhor.
-Aquilo que era para nós, fizemo-lo, e vós sabeis. Acreditai em mim: fizemo-lo para sempre. Protegei a vossa vida de mim.
E não hesitai um instante, se for util para vossa felicidade, em esquecer esta mulher que agora vos diz, sem lamentar, adeus.
quinta-feira, fevereiro 28
surpreendente...
Gregory David Roberts, toxicodependente, foi condenado a dezanove anos de prisão por roubo.Em Julho de 1980, foge da prisão e nos próximos dez anos é o homem mais procurado da Austrália.
O livro, autobiográfico, começa com a sua chegada a Bombaim onde trabalha como traficante de armas, de droga, é falsificador, contrabandista, e membro de uma das Mafias locais.
Foi torturado espancado e sofreu os horrores das prisões Indianas.
A descrição do caos de Bombaim é absolutamente maravilhosa, só falta o cheiro para que possamos dizer que já a conhecemos.
Metade da população vive e dorme na rua. E mesmo a dormir na rua, é preciso fazer turnos para que possam dormir deitados.
Com as cheias, os ratos são tantos, que a correr pelas ruas, devoram as pessoas se estas se mexem.
As personagens são ricas, como Prabaker o seu guia e amigo que tem morte trágica, o chefe da Mafia e filosofo Abdel Khader Knan, e Karla a mulher por quem se apaixona.
Em Bombaim há zonas de leprosos, que traficam os medicamentos que lhes dão para se tratarem. Há os Babas...
“Os Babas de pé eram homens que haviam feito votos de nunca mais na vida se sentarem ou deitarem. Comiam as refeições de pé, faziam a higiene de pé, rezavam, trabalhavam e cantavam de pé....
Durante os primeiros cinco a dez anos daquele estar de pé constante, as pernas começavam a inchar. O sangue movia-se lentamente nas veias exaustas e os músculos engrossavam. As pernas ficavam enormes, inchadas para além do reconhecível e cobertas de furúnculos varicosos roxos. Os dedos transformavam-se em excrescências dos pés carnudos, como os dedos das patas dos elefantes....
A dor era interminável e terrível. Ferrões e lanças de agonia perfuravam-lhes os pés a cada contacto com o chão.”
E há uma diversidade de quadros de vida em Bombaim cidade ao mesmo tempo terrível e fascinante, em cujas ruas apinhadas, caóticas e sujas se escondem aspectos essenciais da vida.
O seu código de honra e amizades levou-o às montanhas do Afeganistão, onde combateu ao lado de mujahedines contra as tropas soviéticas, onde foi ferido e quase morreu.
Sobre este livro escreveu-se:
"Uma obra-prima de intimidade, reflexão e entretenimento,
com toda a força e ritmo de um bom thriller."
Daily Telegraph
"Uma saga admirável e gigantesca."
London Daily Mail
"Um herói brutal, apaixonado e romântico."
London Telegraph
Tenho algumas reservas quando me chegam livros muito grandes, como é o caso, perto de 900 paginas.
Porque me esqueço dos personagens, dos seus nomes, e da importância que têm na narrativa.
Lembro-me que quando li os Cem Anos de Solidão, anotava num bloco os nomes para assim poder saber que Úrsula era a mulher de José Arcádio e que a bela Remédios Buendía era a sua filha.
Com este livro apesar do volume, tive pena de chegar ao fim
Livro muito bom que recomendo sem reservas.
Shantaram
Gregory D. Roberts
Quidnovi 22,46€
domingo, janeiro 6
morreu um mestre

É difícil ser tão frontal e assumir as consequências da sua liberdade critica.
Não houve outro igual nas nossas letras.
E é pena que não haja mais Pachecos na nossa literatura. Alguém conhece?
E era assim que via os outros.
O homem tem uma cara de parvo chapado. Eu estou farto de ler o gajo. Um dia, entro numa livraria e pego nisto ("Boa Noite") e vejo: "Romance". Eu desato a rir a gargalhada! Isto lê-se em dez minutos, este gajo deve ser mas é maluco!"
Luiz Pacheco, sobre Pedro Paixão, em entrevista ao Jornal de Letras de 24 de Setembro de 1997
"O Lobo Antunes e o Saramago não estão a escrever para vocês nem para mim. Estão a escrever uma coisa género "standard", que é o romance internacional. (...) Como sabem que vão ser traduzidos, têm de fazer uma linguagem o mais corrente possível, mais linear, mais badalhoca."
Idem, ibidem
"O Big Brother é um disparate, mas pior é o Emídio Rangel".
Luiz Pacheco (escritor)
Focus, citado por Tal&Qual, 12-Abr-01
Agustina [Bessa-Luís] é a figura essencial na ficção, não tem parceiro. Ao pé dela, falar do Saramago é como falar do cão... A Agustina é ímpar a retratar os meios ligados ao poder e ao dinheiro.
(...)
O Eduardo Lourenço (...) já está um bocado gagá, mas foi muito importante. A Heterodoxia é um grande livro, que mudou a minha cabeça: tão contundente, tão extraordinário, tinha umas coisas de filosofia que, naquele momento, nem sequer consegui acompanhar.
(...)
[Eduardo Prado Coelho] é um tipo muito esperto, usa a inteligência para navegar. É muito antipático para mim, não gosto dele nem da maneira como escreve, mas não escreve mal.
(...)
Sem papas na língua.
quarta-feira, dezembro 26
o fundamentalista relutante
Em cima da minha mesa, junto a tantos outros, há espera de serem lidos, estava um livro a que hoje deitei mão.Não esperava que as 128 páginas do Fundamentalista Relutante me entusiasmassem tanto apesar de ter lido criticas bastante boas.
Escrito por Mohsin Hamid a história centra-se um jovem promissor paquistanês, licenciado em Princeton onde foi um dos melhores alunos. Trabalha numa grande empresa de Nova Iorque que faz avaliações de empresas,com bom vencimento,está apaixonado por uma jovem Americana,rica,de Upper East Side que o vai levar a fazer parte da elite de Manhattan. Nada parece impedir que o jovem Changez de 22 anos faça uma ascensão meteórica na sociedade americana.
Mas o 11 de Setembro muda a vida deste jovem dividido entre os valores americanos a as saudades da sua família, e da sua terra, que começava entretanto o conflito com a Índia.
A cor da sua pele, os seus traços orientais e a desconfiança da sociedade Americana logo após o 11 de Setembro a todos os árabes, transforma Changez, que passa de um emigrante de sucesso a anti americano convicto.
E assim perde o emprego onde era um dos melhores, perde o amor de Erica - atormentada pela lembrança do namorado morto - e regressa à sua terra.
O livro constroi-se numa conversa que é mais um monologo com um americano desconhecido numa mesa de um café em Lahore.
Encontro fatídico este.
Que fará um Americano desconhecido num café de um País em convulsão?
Porque estará armado?
É de facto uma grande e reconfortante surpresa este belo livro nesta fria tarde de Dezembro, e para mim um dos melhores livros de 2007.
sexta-feira, dezembro 14
byblos

é sempre uma boa noticia a abertura de uma nova livraria, ainda por cima quando se anuncia que a sua filosofia de funcionamento assenta sobre o leitor e não sobre o consumidor.
Mas é sempre uma má noticia quando se faz uma pré-inauguração com os chamados Vips. Alguns dos convidados nunca mais lá põem os pés. Se é com os leitores que a Livraria conta de futuro porque não foram eles os convidados?
sábado, novembro 17
li...

um livro extraordinário de Sebastião Salgado, com 250 fotografias recolhidas em África nos últimos 30 anos.
O livro, da Taschen, "África” foi dividido em três partes e foi a sua mulher, Lélia, que o organizou.
A primeira parte retrata o Sul (Moçambique, Malawi, Zimbábue, África do Sul e Namíbia), a segunda, a região dos Grandes Lagos (Congo, Ruanda, Burundi, Uganda, Tanzânia e Quênia) e a terceira a região subsaariana (Burkina Faso, Mali, Sudão, Somália, Chad, Mauritânia, Senegal e Etiópia). O prefácio, quem o escreveu foi Mia Couto que escreve esta coisa extraordinária antecipando as fotos terríveis que se seguem.
"A justificação mais fácil é apontar o dedo ao passado, às heranças coloniais. Explicações sobre as razões da violência abundam:motivações étnicas, históricas, tribais. Na realidade, aqui se repete aquilo que é comum ao mundo: a habilidade das elites criminosas manipularem as pessoas e se servirem da vida alheia como simples meio de guardar poder e acumular riqueza. A especificidade africana é muitas vezes invocada pelos próprios africanos para legitimar o inconcebível. Alguns dos regimes africanos já não precisam de inimigos externos para desprestigiar o continente: melhor que ninguém eles atentam contra a dignidade e o bom nome de África"
Até que enfim que se fala sobre a fome em África, sem pedir o perdão da dívida, e sem responsabilizar o Ocidente pela miséria do Continente Africano. Como se os seus corruptos líderes nada tivessem a ver com isso.
Mas o livro!! o livro é de uma violência por vezes sufocante. E um retrato horrível da bestialidade humana, a mais devastadora doença africana do nosso tempo. Há imagens que não imaginava possíveis, imagens que reflectem uma tristeza insuportável de fome, de extermínio, de doença, de guerras, de massacres, de fuga. E mesmo no sorriso das crianças e nas belas mulheres africanas, Salgado consegue fotografar a tristeza, nas suas almas.
Só não são tristes as belas paisagens africanas do deserto, das tempestades, do pôr do sol, como se Salgado nos quisesse dizer que em África só a Natureza está em paz.
Nunca tinha lido nada tão bonito e trágico de África escrito em imagens. E em língua portuguesa.
segunda-feira, novembro 5
Rio das Flores

Miguel de Sousa Tavares escreveu um livro de 627 páginas- mais 100 que o Equador - que conta a história de uma família latifundiária alentejana em três gerações e tem como cenário, o Alentejo, Espanha e Brasil, e que li na maior parte do tempo com agrado.
Não deixo no entanto de encontrar algumas fragilidades no livro que tanta expectativa criou no seu lançamento.
O livro conta uma história que se lê com facilidade mas não deixa nenhuma margem ao leitor. Está lá tudo o que MST quer dizer.
As descrições são longas como se não pudesse ser de outra maneira. MST tem medo que os seus leitores não percebam o que ele quer dizer e torna assim o livro excessivamente descritivo.
Por outro lado tem urgência a que fiquemos a saber tudo o que uma personagem pensa acerca de tudo, caindo em exageros que não ficam bem no personagem que escolheu.
Reparem nesta.
Maria da Glória a matriarca da família com cerca de 50 anos, mulher de um latifundiário Alentejano que casou aos 18 anos que não estudou nem trabalhou tem esta opinião sobre Salazar. Isto nos anos 40.
“não sabia, talvez, o suficiente acerca de política para explicar porquê, mas o seu instinto não a deixava gostar do que via, do que ouvia, do que sentia. Talvez fosse o homem, mais do que o regime: ela não gostava de Salazar. Não gostava da sua voz de falsete que soava a manha a cada frase, não gostava da sua cara de merceeiro beirão, mais esperto que a freguesia, não gostava da sua pequena estatura (lembrava-se de Manuel Custódio ter dito um dia: "desconfiem sempre de homens baixinhos na política." Mas acima de tudo, não gostava de alguns traços tão louvados da sua personalidade: a de homem sem mulher, sem amantes, "casado com a Pátria", sem filhos, sem amigos, sem irmãos próximos, sem vícios, sem luxos nem fraquezas, que nunca ninguém vira comprar um livro, um quadro, um disco, fumar um charuto ou até um cigarro, ver uma tourada, ir à praia ou ao cinema, gostar de futebol ou de jazz ou mesmo de fado, que nunca viajara fora de Portugal nem sequer a Badajoz, que nunca aceitara deixar-se confrontar numa discussão política ou num artigo de jornal.”
Uma mulher sem instrução que não gosta de Salazar porque nunca “ninguém vira comprar um livro” nem gostar de jazz? Nos anos quarenta? Ninguém acredita nisto.
Não se deve partir para esta leitura com expectativas muito altas. Estamos na presença de um livro de entretenimento nada mais do que isso. De razoável entretenimento. E se as vendas atingirem os cerca de 500 mil exemplares que o Equador vendeu, isso é bom, significa que há mais gente a ler.
Gosto do MST como jornalista e cronista e gosto da sua postura ética, mas para que MST se possa tornar num bom escritor, era preciso que conseguisse escrever um romance em 150 paginas e isso ele não é capaz de fazer.
Apesar de tudo, vou esperar e comprar o próximo.
Rio das Flores
Miguel Sousa Tavares - Oficina do Livro
quinta-feira, outubro 11
as mulheres escrevem bem....

A escritora britânica Doris Lessing ganhou o Prémio Nobel da Literatura. Como não conheço a obra fui à Bulhosa das Amoreiras para comprar os livros que me permitissem conhecê-la.
Eu não conheço a obra mas conheço a escritora, mas empregada que me atendeu não conhecia nem uma nem outra.
Comprei a medo um pequeno livro ( o único disponível ) da Cotovia com o titulo "Gatos e mais gatos" que vou ler.
Digo que comprei a medo porque sempre que há um laureado que não conheço, tenho ido a correr à livraria mais próxima e compro todos os livros do premiado na esperança de ter comprado varias horas de boa leitura.
Raramente passo do segundo e os que sobram intactos aguardam a passagem do alfarrabista cá por casa.
Com uma carreira tão longa eu já deveria conhecer alguma coisa... se não conheço...
Oxalá esteja enganado.
terça-feira, outubro 9
acabei de reler...
A Sonata de Kreutzer na edição da Relógio D`água.
E começa assim
“Aconteceu no início da Primavera. Íamos já no segundo dia de viagem. Entravam e saíam da carruagem passageiros de curta distância, mas havia três que viajavam como eu, desde a estação de partida: uma senhora nada jovem, sem graça, fumadora, cara de cansaço, de chapéuzinho e casaco meio masculino; o acompanhante, um homem loquaz, dos seus quarenta anos, vestindo roupa nova e cuidada; e ainda um senhor de pequena estatura que se mantinha afastado, de gestos impulsivos, nada velho ainda mas com os caracóis do cabelo já grisalhos, sem dúvida prematuramente, e uns olhos muitíssimo brilhantes que corriam velozes de um objecto para outro. Vestia um sobretudo velho mas de boa confecção, com gola de pele de carneiro; na cabeça tinha um gorro alto da mesma pele.”

É aqui que a acção se desenrola, onde, por mero acaso, vários passageiros conversam sobre as motivações do casamento, e sobre o papel do amor nas relações entre homem e mulher, Surgem algumas discussões bastante empolgantes, com posturas radicais e opostas de alguns personagens.
Tolstoi vai buscar o titulo à Sonata para violino e piano nº 9, em lá maior, op. 47 de Beethoven. Música (sobre a qual Tolstoi fala sobre os efeitos que tem sobre o nosso espírito), e que despoleta em Podzdnischeff (um dos personagens do livro) um conjunto de sentimentos que vão desencadear o triste desenlace final.
A não perder sob pretexto nenhum, o livro e a música.
sexta-feira, setembro 28
Acabei de ler

"Contos de Dorothy Parker" na edição da Relógio D`água.
Dorothy Parker (1893-1967) nasceu em New Jersey foi a única mulher que fazia parte do circulo literário que se juntava no Algonquin Hotel, onde intelectuais como Robert Benchley, James Thurber e George Kaufman, se reuniam para discutir literatura e aguardar a saída dos jornais e revistas onde os seus textos seriam publicados.
Estes encontros davam-se a portas fechadas onde em plena lei seca se consumia grandes quantidades de álcool, muitas vezes de origem duvidosa.
Escreveu contos, poemas, e criticas, em revistas como as The New Yorker, Esquire, Vanity Fair e era conhecida pelo seu fino humor e pela sua truculência.
A tristeza esteve sempre presente na sua vida, perdeu a mãe aos quatro anos de idade e seu único irmão morreu no naufrágio do Titanic em 1912, e no ano anterior tinha perdido o pai, o que fez com que se tornasse um ícone do sarcasmo, da astúcia, e do cinismo.
Os contos da Relógio reflectem o carácter desta mulher, bem escritos, tristes quase todos, elegantes, são uma boa escolha para o Outono.
Conta-se que quando lhe disseram que uma sua rival, Clare Boothe Luce, era muito gentil "com os seus inferiores"respondeu “E onde é que ela os encontra”?.
“Essa mulher fala 18 línguas e não sabe dizer não em nenhuma delas” (comentário sobre uma mulher inteligente e liberal nos costumes, que seus amigos elogiavam).
Nem a velhice, nem o alcoolismo, nem a solidão depois de vários amores destroçados, nem as várias tentativas de homicídio lhe retiraram o humor, poucos dias antes de morrer aos 74 anos pediu que lhe escrevessem o seguinte epitáfio:
“Desculpem a poeira!...”
Por mim está desculpada
