
NA MANHÃ SEGUINTE CESARE PAVESE
NÃO PEDIU O PEQUENO ALMOÇO
Logo que desceu do comboio,
só, atravessou a cidade deserta,
entrou sozinho no desocupado hotel,
franqueou a porta do quarto individual,
e escutou com assombro o silêncio.
Dizem que levantou o auscultador
para chamar a alguém
nas é falso, completamente falso.
Como se houvesse alguém a quem chamar -
ninguém vivia na cidade, ninguém no mundo.
ingeriu a água, as pequenas drageias,
e esperou a chegada do sono.
Com um certo receio pela sua saúde -
tinha pela primeira vez firmado a sua existência -,
talvez curioso, com amolecidos gestos,
sentiu chegar o peso das pálpebras.
Horas depois - um enigmático sorriso
desenhava-lhe os lábios -
a si mesmo anunciou, convictamente,
a única certeza que no fim tinha adquirido:
jamais voltaria a dormir só num quarto de hotel.
Juan Luís Panero
1 comentário:
Não conhecia. Este trecho é fabuloso!
Obrigada por partilhares.
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